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Todo o aluno de ensino médio, ou ao menos aqueles que conseguiam prestar atenção ao que dizia o professor, lembra que a relação entre importações e exportações pode prejudicar um país. A história nos ensina sobre o Metalismo, um período vivido pelas metrópoles ibéricas, quando estas brilhavam graças aos metais preciosos extraídos de suas colônias. A Espanha retirava a prata dos povos Incas e usava a mesma para comprar luxos produzidos na Inglaterra. O mesmo fazia Portugal, que extraia ouro nas Minas Gerais e gastava-o todo em roupas de lã, algodão, e outras manufaturas inglesas. Tais países, naquela época, acabaram por financiar os primeiros anos de uma nascente indústria Inglesa, e aquilo que mais tarde seria a industrialização e o capitalismo. Obviamente após alguns anos, o ouro e a prata cessaram e os Espanhóis e Portugueses ficaram literalmente a ver navios, tendo construído apenas uma indústria de vinhos, e ficando com uma balança comercial desfavorável, que lhes prejudicou o ingresso no grupo dos países desenvolvidos, situação só superada agora, com o Euro e o ingresso na comunidade européia. A Inglaterra por outro lado construiu uma economia fortíssima e só foi superada pelos Estados Unidos com a Segunda Guerra e o tratado de Breton Woods.
Certo, mas o que isso tem haver com as exportações brasileiras, que batem recordes, e animam o presidente Lula? Afinal estamos falando de importações ou exportações. Nossas exportações estão maravilhosas, somos uma economia competitiva e crescendo rapidamente na exportação de produtos onde somos competitivos, correto? Os capitais internacionais migram rapidamente para o Brasil, pois sabem que somos uma promessa, parte do BRIC, não é mesmo? Nossa inflação está baixa, nossa economia cresce, o Lula foi reeleito e ninguém acha que ele possa agir como o Chaves, então qual o problema?
Sim, exportamos, sim somos competitivos. O cambio está baixo porque a balança comercial nos está favorável, assim deveríamos estar felizes, como estavam os Portugueses e Espanhóis quando encontraram todo aquele ouro. No entanto, talvez devido à genética, ou a cultura, ou a qualquer outra influência legada por nossos colonizadores, esquecemos um pequeno detalhe. A tendência do ouro é esgotar-se. Nossos principais produtos de exportação são o minério de ferro, e a soja, os carros de passeio e o petróleo Bruto. Na verdade, aproximadamente 40 bilhões de dólares que ingressaram no Brasil em 2005, foram usados para comprar produtos que poderíamos chamar “extrativistas”. Quase metade das nossas exportações estão ligadas a commodities. É verdade que as plantações de soja utilizam tecnologia de ponta, é verdade que a indústria de minério é também uma indústria, mas quanta mão de obra é necessária para plantar vinte hectares de soja? Quantos empregos gera a CSN?
O problema fundamental é simples, nossas exportações de produtos “in natura,” associadas a um aumento dos empréstimos tomados no exterior pelas empresas que não tem uma taxa favorável aqui, estão jogando o cambio cada dia mais para baixo. É bom notar que parte dos empréstimos tomados no exterior hoje pelas empresas nacionais não tem como objetivo aumentar os investimentos, mas sim, ganhar com o spread e faturar em cima da taxa de juros elevada. O cambio baixo torna todos os outros setores, aqueles que geram empregos de verdade, pouco competitivos, internacionalmente, mas também nacionalmente.
Cada vez mais temos exemplos de um REGRESSO DA NOSSA INDUSTRIA, e não de um avanço. Basta usar o exemplo da exportação de couros, que graças aos chineses bateu recordes em 2006. Motivo de orgulho? É certo que é bom exportar couros, apenas não se deve esquecer que ao mesmo tempo nossa indústria de calçados migra para a China e nossas importações de calçados chineses saltaram de 4 milhões de pares em 2003 para 14 milhões em 2005.
Os ciclos extrativistas e agrários brasileiros sempre foram boas oportunidades para o crescimento, e devemos ao ouro e a cana de açúcar a formação e colonização da maior parte do território nacional, ao café a industrialização de São Paulo e as pequenas propriedades rurais o crescimento do Sul do País. Entretanto, não se pode entender como o governo desperdiça o novo ciclo que se abre com a soja, o álcool, a carne e os minérios e em breve os créditos de carbono, e ao invés de fomentar uma indústria que vá adicionando valor as nossas vantagens naturais, como a fartura de água, solo cultivável e minérios, prefere que estas vantagens sejam a nossa fraqueza.
Em algum momento este cenário vai se inverter, seja porque nossos recursos acabarão, seja porque o apetite chinês diminuirá e então o que será o Brasil? Um país com poucas pessoas, ainda com mais dinheiro, já que extraíram ainda mais as riquezas naturais que nos restam, e uma imensa massa de dependentes de ajuda do governo. O mesmo governo que massacra as outras atividades produtivas recolhendo 40% do PIB em impostos e entregando ineficiência administrativa. O dólar então terá de subir, e ai não nos restará indústria nacional para conter a alta de preços decorrentes. Nesta hora, a solução será simples. Precisaremos abaixar o cambio, e existe uma fantástica ferramenta para isso, chama-se subir os juros, que como todos sabem, está baixo e com grande espaço para manobras.
Finalmente, como cantou Chico, seremos um imenso Portugal, a ver navios.
Carlos Amorim Lavieri - Estuda Empreendedorismo e é Mestrando em Administração de Empresas
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