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| São Paulo, 7/09/2010 « Voltar A Consolidação de uma nova sociedade Postado em 05/06/2009 Avaliação:
MARCUS EDUARDO OLIVEIRA prof.marcuseduardo@bol.com.br - 36899396
A consolidação de uma nova sociedade
Marcus Eduardo de Oliveira (*) O ponto de partida deste artigo é apontar para a premente necessidade de se consolidar um novo modo de viver, face as constantes e crescentes disparidades sócio-econômicas que se desenrolam no cenário mundial, cuja expressão maior talvez seja a constatação de que mais de 2 bilhões de pessoas passam fome. Em pleno século XXI, quando todos esperavam por uma sociedade mais justa, mais fraterna e menos desigual, o atual modelo de consumo e produção dá mostras mais do que suficientes de que não é mais possível suportar tamanha disparidade entre o modo de viver (e de consumir) dos que habitam o Norte (15% da população mundial) em cotejo aos que residem no Sul (85%). A desigualdade social ganhou proporções inaceitáveis, face ao desamparo que relega a mais de 4,5 bilhões de pessoas. Inadmissível é aceitarmos o excessivo consumo do Norte, sabendo que a contrapartida é o subconsumo do Sul. Impensável é não criticarmos o estrago a que o meio ambiente vem sendo conduzido em face da ganância dos lucros dos grandes grupos financeiros e empresariais. Veja que, enquanto o aquecimento global tende a provocar a destruição do ambiente, a Exxon – a maior petrolífera do mundo -, obteve em 2006 o maior lucro da história do capitalismo: 39,5 bilhões de dólares. Isso mesmo: quase 40 bilhões de dólares, valores esses jamais atingidos por qualquer outro grupo empresarial. “A Terra é para todos, menos para os consumistas”, já profetizava Mahatma Gandhi que perguntado, logo após a Independência da Índia, se esta seguiria o modelo de desenvolvimento e o estilo de vida dos britânicos assim respondeu: "...a Grã-Bretanha precisou de metade dos recursos do planeta para alcançar sua prosperidade; quantos planetas não seriam necessários para que um país como a Índia alcançasse o mesmo patamar?". Assim sendo, urge encontrarmos maneiras de mudar o atual estágio de consumo e produção que só tem feito explodir as contradições nas sociedades mais carentes, até mesmo porque é o futuro da própria humanidade que corre perigo. A consolidação de uma nova sociedade, de um novo modelo econômico e social se dá de forma definitiva quando o modelo anterior entra em decomposição. O que leva o modelo anterior (no caso, o atual) a entrar em decomposição, derivando, pois, em sua factível e inevitável ruptura são as existências de contradições diversas – com grande peso, em nosso entendimento, para as contradições econômicas, quer expressa na detenção (posse) dos fatores produtivos por uma parcela pequena (porém, forte e coesa a ponto de se autodenominar elite burguesa) da sociedade, quer expressa na composição dos salários recebidos por uma parcela majoritária da sociedade (a classe trabalhadora) que vê seus rendimentos cada vez mais se aviltarem em detrimento de lucros cada vez mais crescentes dessa parcela pequena (elite) que detém (domina) os fatores de produção, ou ainda quer expressa nesse modo desigual (e brutal) de consumo a que começamos a fazer menção. Assim sendo temos aqui, na somatização desses fatos, verdadeiros embriões formadores da concentração de renda e, por conseguinte, da desigualdade; per si, fator mais que preponderante da contradição econômica mais desleal que a história do capitalismo, desde seu nascedouro criou: desigualdade essa propriamente dita onde, em especial, no caso do Brasil, ganha contornos mais do que inaceitáveis, visto que somos, dentre quase 200 países, o quarto pior em matéria de péssima distribuição dos ganhos, superando apenas Malawi, Botsuana e Namíbia, segundo os últimos informes do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). Esse mesmo estudo elaborado pelos técnicos do PNUD, quando atentam para a situação das crianças no mundo afirmam que “every year six million children die from malnutrition before their fifth birthday”. Ainda explorando esse pormenor (o das contradições), os escritos de Marx já apontavam para a seguinte observação: as contradições derrubam e quebram paradigmas, promovem rupturas. Marx acreditava, portanto, que as contradições inerentes a um sistema gerava sua própria destruição – “o homem é lobo do homem”, diria Plauto! Dessa forma, cumpre apontar que da crise do escravismo (a partir do Império Romano) surgiu o feudalismo. Da ruptura do feudalismo (pela contradição em atender as demandas cada vez maiores da burguesia feudal cuja produção se assentava no trabalho servil e da fuga desses) surgiu o capitalismo (cuja essência é o trabalho assalariado em lugar do servil sendo que sua primeira demonstração localizou-se na fase comercial, depois na industrial e hoje, repousa suave e confortavelmente na esfera financeira, com o absurdo predomínio dos grandes bancos e corporações financeiras). Da superação desse capitalismo, Marx profetizava o socialismo como estágio superior. Se esse (o socialismo) está (ou estará) fadado a ser, no futuro, o último estágio da humanidade é tarefa que não nos cabe aqui ponderar, pois escapa-nos qualquer “tentativa” de se praticar o exercício da “futurologia”. O fato é que o socialismo, em nosso entendimento, “não morreu”, como querem fazer crer alguns gurus do sistema financeiro-corporativo, dentre eles, um alucinado e futurólogo sino-americano de nome Francis Fukuyama que ganhou fama (?) repentina ao prever “o fim da história”. Ao perceber que a história continua, viu seu nome mergulhar no risonho. Voltando ao ponto das contradições (na verdade o pomo da discórdia), em nosso entendimento a razão precípua de existirem tais incongruências está relacionada quase que exclusivamente ao modo de produção capitalista, cuja essência e base sólidas (que na verdade se desmancham no ar) repousam na competição (base do liberalismo econômico clássico) que se apresenta de forma desleal (pois divide e exclui); portanto se auto convertendo em potencial gerador de discórdias onde, na ponta final, potencializa a decomposição de qualquer sistema. Marx, observando de perto essa questão, mais uma vez nos parece preciso (e lógico) quando contextualiza que “o capitalismo, na sua ascensão, aniquila progressivamente as classes intermediárias e as proletariza”. Para toda subida há uma conseqüente queda. Diz a sabedoria popular que “quanto maior o vôo, maior é o tombo”. Ora, diante disso uma primeira e crucial constatação se faz premente: somos sabedores de que o capitalismo, em sua essência, se apresenta como um excelente alocador de recursos; porém, ao mesmo tempo, é também um péssimo distribuidor de resultados. Nesse pormenor, cabe tomar emprestado a contribuição teórica dos economistas que argumentam que a “distribuição” fecha aquilo que seria um ciclo virtuoso da “reprodução” que se inicia com o “consumo” (agregados-chave da macroeconomia). Pois bem. Se essa distribuição é falha, portanto o virtuosismo (ciclo virtuoso) esperado dessa engrenagem se rompe, convertendo-se em “vício” – outro potencial gerador de conflitos, visto que os “vícios” em forma de “ciclos” (nesse caso, ineficientes e contraproducentes) levam às crises no mercado interno – apresentam e corroboram para uma distribuição falha de bens e serviços, aumento da concentração da renda, queda do poder aquisitivo, diminuição da cadeia produção-consumo repercutindo, de imediato, no nível de empregos, quando não no nível geral de preços que prontamente dispara. Portanto, essa decomposição (degradação) gerada pelo capitalismo (em virtude dessas falhas nas artérias da macroeconomia) e que se expressa de forma nítida do lado econômico não para por aí. Do lado econômico se estende ao lado político, até mesmo porque sabemos que o poder econômico inevitavelmente leva ao poder político (o poder político para se manter precisa do poder econômico assim como o poder econômico para se perpetuar e auferir maiores resultados recebe de braços abertos e confabula com o poder político). Na esteira desse comentário, cremos que não há outra razão para explicar, por exemplo, os escandalosos financiamentos de campanhas eleitorais, bem como a formação de lobbies corporativos que representam grandes grupos econômicos. De toda forma, a fim de ilustrarmos melhor a “podridão” desse sistema, basta atentar aos indicadores sócio-econômicos da “economia-mundo” fartamente divulgados pela grande mídia. Um deles bastaria, assim entendemos, para desanuviar por completo essa questão. Tome-se uma macabra cifra já conhecida de muitos: 1 em cada 7 pessoas do mundo padece de fome, num mundo em que a produção agrícola grassa a passos céleres. No entanto, a produção e comercialização de vitaminas (e não só de alimentos, percebam!) aumenta consideravelmente. Ademais, uma vaca na Europa central consome 4 dólares por dia para seu sustento. Pouco importa, para os detentores do grande capital que, na outra ponta, dois bilhões de seres humanos ganham menos de 2 dólares por dia, enquanto outro bilhão de pessoas encontram-se mal nutridas, enquanto 300 milhões de crianças estão fora da escola dormindo ao relento das grandes cidade e 250 mil crianças encontram-se nos “exércitos clandestinos” pegando em armas ou perambulando de um país ao outro, rompendo fronteiras fugindo de invasões patrocinados pelo grande capital (vide Iraque, Afeganistão). Desse modo, os que ganham menos de dois dólares/dia recebem exatamente 50% menos do uma vaca européia. Alguém quer contradição maior do que essa? Urge ou não mudarmos essa sociedade. Não seria melhor seguirmos o conselho de Leonardo Boff e trocarmos o modo de competição (que subtrai e exclui) pelo de cooperação (que soma e inclui)?
(*) Economista, mestre pela USP e Professor do Departamento de Economia da FAC-FITO. É autor de “Conversando sobre Economia” (Ed. Aliena).
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| Comentário Econômico - 2010 |
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